ACCS: Diálogos com práticas culturais
soteropolitanas
Ementa:
Abordagem de vivências e práticas
culturais/ artísticas em diversos contextos sócio-geográficos de Salvador, com
ênfase em bairros populares, tanto através de observações e participações pelo
grupo de estudantes participantes (que deve assumir o protagonismo na indicação
de lugares e vivências), quanto por leituras de textos e discussões coletivas concernentes
ao tema, buscando construir diálogos e colaborações com as formas de expressão
observadas e vivenciadas, através de meios e em formatos a definir e a
experimentar durante a disciplina. A disciplina ainda inclui a proposta de uma
culminância cênico-musical cujo formato e local de realização dependerá das
características específicas das vivências, evitando que se estabeleça de forma
antecipada modelos e formatos prontos, sem antes de conhecer de fato as
realidades culturais a serem vivenciadas
Áreas envolvidas na
proposta:
Etnomusicologia, música, teatro, antropologia, educação
social
Horários:
A definir, conforme observações do grupo participante;
realização alternada de aulas “teóricas” e idas ao campo e vivências em bairros
e lugares a definir, conforme vivências e contatos anteriores do grupo de
participantes.
Aulas fixas na EMUS, às quintas feiras, das 13 – 16.40h,
idas ao campo neste mesmo dia e/ou horários alternativos, conforme necessidade
dos acontecimentos culturais e a disponibilidade de agenda do grupo de
estudantes participantes.
Objetivos:
-
Abordar de forma crítica o conceito de arte e cultura através da participação ativa
de alunos e alunas que trazem suas experiências e vivências de bairros
populares em Salvador e/ou outros locais.
-
Aproximar-se a uma bibliografia especializada que aborda a questão da
diversidade cultural em contexto urbanos brasileiros.
-
Estabelecer relações de descobertas e trocas com comunidades e suas variadas
expressões culturais na grande Salvador.
-
Realizar visitas/ observações / vivências em bairros (em especial os populares)
a partir de contatos já pré-existentes, seja da parte das professoras ou do
grupo de participantes,
-
Buscar e incentivar trocas entre pessoas e expressões de bairros diferentes, bem
como visar possíveis visitas destas pessoas às escolas de Artes, se o
desejarem.
-
Realizar, se possível, uma culminância artística/ cultural entre o grupo de
estudantes participantes e um (ou mais) dos contextos visitados, a ser mostrado
em lugares a definir, inclusive na EMUS ou EMAC.
-
Realizar experiências/intercâmbios artísticos, integrando os/as estudantes e pessoas/
grupos participantes dos contextos visitados, a ser mostrado em lugares a
definir, inclusive na EMUS ou EMAC
Conteúdo programático:
Compartilhamento de
vivências com colegas
Leituras sobre
contextos culturais comunitários
Processo do
despertar do sensível através de metodologias de arte-educação
Discussão de
conceitos como cultura, arte, espaço público, urbanismo e bairros periféricos
Observações de
contextos culturais em bairros diferentes
Possível mapeamento a
partir das observações feitas
Participações do
grupo de estudantes em contextos escolhidos
Processos criativos
e intercâmbio artístico nos e com os contextos visitados
Reflexões finais,
juntando leituras e vivências
Construção coletiva
de uma experiência artística cultural fruto da convivência entre todos os/as
estudantes participantes e grupos comunitários, em forma de cena, recital de
poesias, texto-manifesto etc)
Contexto da
comunidade:
Teoricamente todos os bairros de
Salvador poderiam ser envolvidos, em especial os bairros periféricos, sejam-nos
em termos geográficos e /ou sociais, como locais pouco percebidos pela
sociedade soteropolitana, a não ser de forma negativa e preconcebida. Mas, na
prática in inclusão, ou não, depende dos vínculos já existentes das pessoas
participantes. Pensamos nos bairros ditos populares que guardam muitas
características culturais particulares, muito além dos estereótipos criados pelas
mídias e o senso comum. Desta forma a disciplina entende-se como possibilidade
de conhecer a cidade a partir de outro ângulo e permitir ao grupo de
participantes de ampliar seu conceito de cultura e arte a partir de suas próprias
vivências, observações e experiências novas e diferentes, idealmente guiadas
por participantes residentes nos bairros visitados. Isso contribuirá para uma
visão mais equilibrada de conceitos de cultura e espaço urbano, desconstruindo definições
estanques relativos ao conceito cultura.
Interdisciplinariedade:
A proposta propõe-se a retomar
vivências e convivências não apenas entre parte das escolas de Artes que por 20
anos desenvolveram várias atividades e disciplinas como EMAC (1969 a 1989), mas
também com a cidade do Salvador, seus vários espaços e as pessoas que nela
habitam, partindo da constatação do ainda pouco diálogo entre universidade e
sociedade, salve poucas exceções. Devido a não inclusão e não consideração
sistemática de vivências culturais no currículo da EMUS, além do cânone ainda
pautado em referências musicais europeias, torna-se urgente permitir e
incentivar a descoberta, a percepção e o reconhecimento de outros modos de ser
expressar artisticamente e dos locais onde acontecem música/ arte/ cultura.
Sabendo que hoje muitos alunos/as da UFBA vem de bairros periféricos de
Salvador, sendo cotistas ou não, torna-se importante entendê-los/las como
protagonistas para guiar os/as colegas de turma na descoberta de outros espaços
e suas vivências para assim ampliar os conceitos vigentes de cultura/ música e
arte, além de discutir desigualdades sociais e aspectos interdisciplinares e
pensar em possíveis desdobramento das reflexões e descobertas para os
currículos em vigor.
Em relação às pessoas nos locais
a serem visitados podem surgir as mais diversas demandas, ainda não previsíveis
que devem ser ouvidos com sensibilidade, para pensar nos melhores
encaminhamentos e desdobramentos, sem querer direcioná-los desde já e evitando
atitudes paternalistas ou de percepção condescendente ou “exotizante” das
pessoas, suas expressões e das possibilidades de diálogo.
Metodologia:
A metodologia busca o
reconhecimento de vivências culturais prévias dos/das estudantes participantes,
fortalecendo o seu protagonismo. Assim acredita-se que haja uma motivação
especial para as pessoas participantes poderem trazer suas vivências e
construir a partir da diversidade novas propostas de diálogos entre contextos
muitas vezes desconectados entre si ou não percebidos pelo contexto
universitário.
Desta forma os locais a serem
visitados dependem, em última instância, do efetivo perfil do grupo de
participantes, embora possa haver sugestões da parte das professoras
responsáveis, caso demore em ter contribuições, como p.ex.: o sarau da onça
(Sussuarana), o sarau urbano (Engenho Velho de Brotas), a batalha de freestyle
no Dique, encontros e ensaios de grupos de samba junino em vários bairros
populares, entre várias outras possibilidades de expressões a serem visitadas.
A participação ativa do grupo de
participantes na indicação/escolha de locais e vivências culturais, musicais ou
cênicas, a serem visitados será um diferencial de componentes convencionais, o
que levará também à discussão de questões estéticas, éticas e conceituais que
irão além do aspecto artístico, pois infalivelmente trarão questões como
desigualdade e exclusão social, preconceito cultural e estético, políticas de
representação e racismo, entre várias outras questões. Entendemos a metodologia
como proposta aberta, necessariamente precisando das possibilidades de
direcionamento da parte de todo o grupo de participantes, o que nos faz evitar
propositalmente definições e decisões prévias.
Avaliação:
A partir da
participação de pessoas com vivências prévias em bairros diversos será possível
conhecer a diversidade cultural na prática e refletir sobre ela ao longo da
realização da atividade. O grupo de participantes receberá um questionário de
sondagem no início para colocar suas percepções, bem como no final. Assim será
possível perceber o nível e a profundidade das percepções, reflexões e
possíveis mudanças nas suas percepções.
O diálogo
artístico com pessoas ou grupos envolvidos no processo ao longo do semestre
levará a formas de expressão em constante construção. Uma das várias observações
vividas/ colaborações artísticas pode ser transformada em uma vivência
criativa, a ser apresentada em um lugar a definir, seja na UFBA ou fora dela,
assim levando a novas discussões sobre lugares, formatos e expressões. Consideramos
que criações artísticas, fruto da convivência entre estudantes e agentes
culturais locais, bem como Rodas de Conversa nesses locais, são indicadores
quantitativos e qualitativos importantes.
Indicadores de
avaliação da melhoria prevista para a atuação docente:
A inserção das docentes em um
processo dialógico trará importantes reflexões para fundamentar novas propostas
para o contexto de atuação docente nas unidades de origem das duas docentes,
mesmo que já tenham ampla experiência fora da UFBA. Mas certamente a atividade
ACCS em conjunto com o grupo de estudantes e pessoas oriundas de comunidades
diversas, levará a um reconhecimento de outra práticas culturais- artísticas
que permitem ampliar discussões e fortalecer propostas metodológicas diferentes
em sala de aula.
A relação com um número
diversificado de pessoas, grupos culturais e comunidades reforçará também o
compromisso de pensar nas responsabilidades da atuação docente para com o
incentivo a pessoas que queiram se aproximar às escolas de Artes da UFBA, mas
ainda não as conheçam.
Sintese de diferença de outras disciplinas:
Mesmo que já haja diversas
disciplinas que se proponham a mergulhar no ambiente da cidade, ainda não
existe nenhuma disciplina com esta abrangência na EMUS que busque dialogar com
pessoas, espaços, lugares e expressões presentes neles. Na Escola de Teatro há
um pouco mais de prática neste sentido, mas ainda sem um diálogo com a EMUS,
assim a parceria entre as duas unidades também parece ser uma diferencial
importante. Caso haja propostas parecidas em outras unidades, estas por sua
vez, aparentemente, não envolvem alunos e alunas de música, pois não houve
ainda relatos neste sentido.
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