quarta-feira, 13 de junho de 2018

Campainha sincera

"Quando ouço a campainha que anuncia que as portas do metrô irão fechar, lembro de minhas mães. Cresci e fui educado na casa de meus tios. Considero minha tia como uma mãe. A chamo de mainha, mas quando falo sobre ela para os outros, a chamo de tia-mãe para que as pessoas não a confundam com minha mãe biológica quando falo sobre ambas. Embora eu não concorde com muitos pensamentos e atitudes delas, tenho que admitir: admiro a sinceridade que elas exercem. Uma é mais sutil e leve, outra muito direta e sem papas na língua, não poupando alcances vocais altos carregados de intenções.
Minhas mães são como a campainha do metrô. Ora aparenta ser alta demais, ora aparenta ser baixa demais. Ora aparenta ser sutil e doce, ora aparenta ser desesperada e enraivecida... mas sempre é sincera. É simples. Basta alguém ouvir aquele barulho que automaticamente observa as portas e evita estar muito perto. Pronto, o som foi breve, direto e sincero: 'se você continuar aqui provavelmente perca um braço, um pé ou uma mochila'.
É muito engraçado. Às vezes também me sinto como essa campainha. Às vezes me sinto uma mistura de minhas mães. Às vezes sou considerado rude, por ser direto demais; às vezes sou considerado ignorante por opinar sobre um determinado assunto com minhas impressões. Às vezes também sou taxado de insensível por ser direto e racional demais em alguns momentos enquanto a minha fala. 'Não gosto disso'; 'Não acho isso legal'. 'Gosto disso'; 'Acho que poderíamos fazer mais isso'. 'Não gosto de você'; 'não quero conversar agora'. 'Gosto muito de você, acho que deveríamos ser amigos. Você quer ser meu amigo?'; 'estou com raiva'; 'estou triste'; 'estou alegre'; 'estou satisfeito'.
Frases diretas e sinceras demais. Apenas convivo com pessoas assim.
Há uma grande sinceridade que chega a ser assustadora na campainha do metrô. Mas quem é que vai julgar o metrô? Ninguém... porque todos precisam dele. Quem vai criticar a sua campainha?, ninguém, porque todos agradecem por estarem com seus braços inteiros enquanto as portas se fecham. A campainha do metrô é sincera e direta, a campainha do metrô é muito bem educada. A campainha do metrô é muito bem interpretada!"

Texto escrito: ‏‎07:10, ‎terça-feira, ‎22‎ de ‎maio‎ de ‎2018.
Autor: Vitu Gilrassol

Já morei ali

"Talvez soe louco, e talvez seja mesmo, mas já morei ali. Já morei naquele lugar onde caminhamos. Aquilo ali não foi tão novidade pra mim. Não me refiro às casas que parecem ser de interior sertanejo ou das ruas que passam carros constantes. Não tô me referindo também aos homens que vendem vegetais em frente ao mercado em caixotes com furinhos no fundo e tracinhos verticais na lateral. Também não estou me referindo às ladeiras, no qual tanto já andei, subi, desci, caí de skate e me ralei todo. Mais uma vez, não tô me referindo à escola com estudantes vespertinos, onde eu buscava meu irmão no fim da tarde; às casas largadas que parecem mal assombradas durante a noite e a uma tríade de rua numa avenida movimentada. Não estou me referindo às igrejas que coexistem no mesmo espaço que quintais africanos. Estou me referindo a um bairro aí, que me parece ser parente desse novo bairro - novo pra mim, que conheci agora.
Estou me referindo ao movimento, à atmosfera. Já morei ali, naquela atmosfera. Já morei ali naquele horário, em que as lojas de roupas estão abertas pois seus donos sabem que as pessoas voltando do trabalho veem e desejam o que está sendo exposto; em que os barzinhos começam a se abrir de verdade e as crianças vão comprar refrigerantes pra merendar. Já morei ali, naquelas escadinhas que vão se encurtando e se enlarguecendo, mas que servem como mini condomíneos com vizinhança que chama um ao outro com um grito baixo pra pedir tempero emprestado, e também como atalho pra quem vai pra um outro lado de não sei onde.
Já morei ali, onde dá pra ver o pôr do Sol, e onde a padaria abre na tarde e as pessoas vão comprar pão. Já morei ali onde é normal ter uma sex shop. Já morei ali perto do lugar que faz tatuagem que fica aberto até às 20h, mas que sempre fecha mais tarde pois as tatuagens não são terminadas no horário em que o estabelecimento deveria fechar. 'Fecha a porta aí e não deixa mais ninguém entrar que eu só tô terminando essa daqui'. Os salões masculinos em que os homens não gostam de chamar de salão e por isso temos que chamar de barbearia. Já cortei cabelo lá, quando eu cortava meu cabelo.
Já morei em frente àquela casa da tia 'macumbeira', em que dia de sexta tem que se benzer quando passar em frente, que ela inventa de vestir branco. 'Um dia uma cobra fugiu de lá', assim me disseram. 'Aquela estátua com cabeça de jacaré representa o animal que existe no homem', assim também me disseram. Meu Deus, eu deveria ter me benzido toda hora, pois eu vivia literalmente em frente à casa da tia em que vivia na mesma rua da igreja Adventista, onde só existe um deus - amém!  Morei perto daquela avenida que no fim da tarde fica toda movimentada e que por isso menino tem que olhar pra os dois lados antes de atravessar. 'Não fique confiando naquela sinaleira ali não'.
Enfim... morei ali e tenho certeza disso. Ou seria melhor dizer que aquele lugar agora mora em mim? Não sei muito bem. Só sei que alguém tá morando em alguém, e desses alguéns, alguém não pode ir brincar na rua depois das 7."

Texto escrito: 00:56, quarta-feira, ‎9‎ de ‎maio‎ de ‎2018.
Autor: Vitu Gilrassol

Barulhos dizem, ouvidos ouvem, mentes criam: o asfalto não mente

"Há uma meditação calma, silenciosa e conectada na avenida Heitor Dias. Os carros passam, como em ritmo e harmonia sincronizada, espontânea. Carros passam e deixam audíveis seus pneus em circulação frenética. 
Quando vou dormir, eu poderia ouvir uma música com meus fones de ouvido, porém, como sempre, desde minha cidade natal, moro perto de pistas com bons movimentos de carros. Quando vou dormir, como sempre, ouço de longe-perto os carros cortando o ar em velocidade desencadeada por seus motores e pneus que desfilam pelo asfalto.
O ar é cortado; os caminhões passam; as motos também passam. Entre um 'vuuur' e outro, há um mais rápido e mais barulhento 'vrauuum'. Chega a ser cômico. Chega a ser desestruturante. Chega a ser nostálgico.
Lembro bem como quando eu era uma criança pequena: carro bom era apenas os que andavam rápido e faziam barulho quando cortavam o vento. Hoje, já uma criança grande, sei que o barulho não é do vento sendo cortado. O barulho vem do asfalto sendo eficiente no que se propõe a fazer: facilitar a vida dos pneus!
Vou retornando aos pedacinhos de minha infância. Fecho meus olhos de mel e me sinto em casa. É bom. É reconfortante. Qualquer lugar com um asfalto saudável e com carros que cortam o ar me trazem calma, me trazem paz, me trazem casa.
Qualquer lugar com um asfalto, automóveis passando por ele, e ventos sendo cortados quer dizer muito pra mim! Meus ouvidos ouvem como quem ouve uma canção de ninar. Minha mente cria ideias calmantes como quem pratica Zazen. O asfalto é um caminho de encontro do meu 'Eu' comigo mesmo; e quando isso acontece vou de encontro a um equilíbrio consciente seguido por um sono gostoso!
Durmo! Durmo embalado por automóveis desfilando em um asfalto, pra acordar de manhãzinha, com buzinas e ônibus massacrando o vento e trazendo um pouco mais de agonia. E nesse momento já não há mais nem calma, nem equilíbrio, nem calmaria. Nesse momento só há mais um pouco de vontade de calma, de sono e de alegria. O asfalto não mente!"

Texto escrito: 00:27, quarta-feira, 9 de maio de 2018.
Autor: Vitu Gilrassol

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Paisagem sonora 24/05/2018

Sonoridades diversas.
Músicas diversas de Milton Nascimento.
Paisagem da janela
Um girassol da  cor de seu cabelo
Sedução
Travessia
Canção do sal
Nuvem cigana
Para lennon e maccartney
Certas canções
Caxangá
Cata-vento
Vera cruz
Ponta de areia
Trem de doido
Ânima
Caçador de mim.

Essa semana chegaram novos vizinhos.  E uma nova sonoridade apareceu. O dia inteiro tocando dance music.

Tum tis Tum  tis tum

Outro vizinho toca  Silvano Sales:
"Agora não  me chame de meu nego.  Agora não  me chame de bebê. Pois era assim que ela me chamava e um apelido carinhoso é mais difícil de esquecer "

Todos os dias bem cedo ouço  o choro de um cachorrinho.
Às 5 horas  da manhã  ouço  panelas,  água  na pia,  som do botão  do fogão  girando para ferver água.
Quero meu acholatado,  diz Tomás ao acordar. Depois vem bom dia e beijinhos.
Não  mãe,  não  mãe.  Minha filha diz quando vou acordá-la.
Som do chuveiro ligado.
"Não  quero! Não  lava minha cabeça."
Tomás  fala durante o banho.
Som de carros.

"Bom dia."
"Que lindos!"
"São gêmeos?"
"Tchau mãe! Deixa dar abraço . Deixa dar beijo!"

Bi bi  bi

Vrum  Vrum

Passos.

Metrô.

"Fiquem longe das portas"
"Ceda lugar,  especialmente os assentos de cor azul".