quarta-feira, 13 de junho de 2018

Já morei ali

"Talvez soe louco, e talvez seja mesmo, mas já morei ali. Já morei naquele lugar onde caminhamos. Aquilo ali não foi tão novidade pra mim. Não me refiro às casas que parecem ser de interior sertanejo ou das ruas que passam carros constantes. Não tô me referindo também aos homens que vendem vegetais em frente ao mercado em caixotes com furinhos no fundo e tracinhos verticais na lateral. Também não estou me referindo às ladeiras, no qual tanto já andei, subi, desci, caí de skate e me ralei todo. Mais uma vez, não tô me referindo à escola com estudantes vespertinos, onde eu buscava meu irmão no fim da tarde; às casas largadas que parecem mal assombradas durante a noite e a uma tríade de rua numa avenida movimentada. Não estou me referindo às igrejas que coexistem no mesmo espaço que quintais africanos. Estou me referindo a um bairro aí, que me parece ser parente desse novo bairro - novo pra mim, que conheci agora.
Estou me referindo ao movimento, à atmosfera. Já morei ali, naquela atmosfera. Já morei ali naquele horário, em que as lojas de roupas estão abertas pois seus donos sabem que as pessoas voltando do trabalho veem e desejam o que está sendo exposto; em que os barzinhos começam a se abrir de verdade e as crianças vão comprar refrigerantes pra merendar. Já morei ali, naquelas escadinhas que vão se encurtando e se enlarguecendo, mas que servem como mini condomíneos com vizinhança que chama um ao outro com um grito baixo pra pedir tempero emprestado, e também como atalho pra quem vai pra um outro lado de não sei onde.
Já morei ali, onde dá pra ver o pôr do Sol, e onde a padaria abre na tarde e as pessoas vão comprar pão. Já morei ali onde é normal ter uma sex shop. Já morei ali perto do lugar que faz tatuagem que fica aberto até às 20h, mas que sempre fecha mais tarde pois as tatuagens não são terminadas no horário em que o estabelecimento deveria fechar. 'Fecha a porta aí e não deixa mais ninguém entrar que eu só tô terminando essa daqui'. Os salões masculinos em que os homens não gostam de chamar de salão e por isso temos que chamar de barbearia. Já cortei cabelo lá, quando eu cortava meu cabelo.
Já morei em frente àquela casa da tia 'macumbeira', em que dia de sexta tem que se benzer quando passar em frente, que ela inventa de vestir branco. 'Um dia uma cobra fugiu de lá', assim me disseram. 'Aquela estátua com cabeça de jacaré representa o animal que existe no homem', assim também me disseram. Meu Deus, eu deveria ter me benzido toda hora, pois eu vivia literalmente em frente à casa da tia em que vivia na mesma rua da igreja Adventista, onde só existe um deus - amém!  Morei perto daquela avenida que no fim da tarde fica toda movimentada e que por isso menino tem que olhar pra os dois lados antes de atravessar. 'Não fique confiando naquela sinaleira ali não'.
Enfim... morei ali e tenho certeza disso. Ou seria melhor dizer que aquele lugar agora mora em mim? Não sei muito bem. Só sei que alguém tá morando em alguém, e desses alguéns, alguém não pode ir brincar na rua depois das 7."

Texto escrito: 00:56, quarta-feira, ‎9‎ de ‎maio‎ de ‎2018.
Autor: Vitu Gilrassol

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