"Talvez soe louco, e talvez seja mesmo, mas já morei
ali. Já morei naquele lugar onde caminhamos. Aquilo ali não foi tão novidade
pra mim. Não me refiro às casas que parecem ser de interior sertanejo ou das
ruas que passam carros constantes. Não tô me referindo também aos homens que
vendem vegetais em frente ao mercado em caixotes com furinhos no fundo e
tracinhos verticais na lateral. Também não estou me referindo às ladeiras, no
qual tanto já andei, subi, desci, caí de skate e me ralei todo. Mais uma vez, não
tô me referindo à escola com estudantes vespertinos, onde eu buscava meu irmão
no fim da tarde; às casas largadas que parecem mal assombradas durante a noite
e a uma tríade de rua numa avenida movimentada. Não estou me referindo às
igrejas que coexistem no mesmo espaço que quintais africanos. Estou me
referindo a um bairro aí, que me parece ser parente desse novo bairro - novo
pra mim, que conheci agora.
Estou me referindo ao
movimento, à atmosfera. Já morei ali, naquela atmosfera. Já morei ali naquele
horário, em que as lojas de roupas estão abertas pois seus donos sabem que as
pessoas voltando do trabalho veem e desejam o que está sendo exposto; em que os
barzinhos começam a se abrir de verdade e as crianças vão comprar refrigerantes
pra merendar. Já morei ali, naquelas escadinhas que vão se encurtando e se
enlarguecendo, mas que servem como mini condomíneos com vizinhança que chama
um ao outro com um grito baixo pra pedir tempero emprestado, e também como
atalho pra quem vai pra um outro lado de não sei onde.
Já
morei ali, onde dá pra ver o pôr do Sol, e onde a padaria abre na tarde e as
pessoas vão comprar pão. Já morei ali onde é normal ter uma sex shop. Já morei
ali perto do lugar que faz tatuagem que fica aberto até às 20h, mas que sempre
fecha mais tarde pois as tatuagens não são terminadas no horário em que o
estabelecimento deveria fechar. 'Fecha a porta aí e não deixa mais ninguém
entrar que eu só tô terminando essa daqui'. Os salões masculinos em que os
homens não gostam de chamar de salão e por isso temos que chamar de barbearia.
Já cortei cabelo lá, quando eu cortava meu cabelo.
Já morei em frente
àquela casa da tia 'macumbeira', em que dia de sexta tem que se benzer quando
passar em frente, que ela inventa de vestir branco. 'Um dia uma cobra fugiu de
lá', assim me disseram. 'Aquela estátua com cabeça de jacaré representa o
animal que existe no homem', assim também me disseram. Meu Deus, eu deveria ter
me benzido toda hora, pois eu vivia literalmente em frente à casa da tia em que
vivia na mesma rua da igreja Adventista, onde só existe um deus - amém! Morei perto daquela avenida que no fim da tarde
fica toda movimentada e que por isso menino tem que olhar pra os dois lados
antes de atravessar. 'Não fique confiando naquela sinaleira ali não'.
Enfim...
morei ali e tenho certeza disso. Ou seria melhor dizer que aquele lugar agora
mora em mim? Não sei muito bem. Só sei que alguém tá morando em alguém, e
desses alguéns, alguém não pode ir brincar na rua depois das 7."
Texto escrito: 00:56, quarta-feira, 9 de maio de 2018.
Autor: Vitu Gilrassol